ForeverMissed
Histórias de João

À porta da formosa Barbearia Mimosa

Partilhado por João Carlos Silveira em 29 de maio de 2020
Há retratos, que nos roubam a vista deixando-nos de olhos arregalados, acesos pela magia dedicada às recordações doutros tempos. Olhares de espanto. O coração desprevenido quer saltar cá para fora com o alvoroço das figuras fotografadas (tão sumidas). É impossível que eu deixe escapar tudo o que há para ver nessas fotos: bisavós acarcoujados, amigos tão familiares da nossa casa, cavaladas de romeiros, convívios de artífices. São as imagens das memórias que se tornam nos instantes de cada um de nós.

 - E este, quem é? - O retrato, com setenta anos, desvela o comércio de tradição idanhense, o qual morrerá tempos depois.

Dois homens e um cachopo dos seus quinze anos são apanhados à porta da formosa Barbearia Mimosa.

Dois painéis, enquadrados em molduras de madeira com tampas de vidro, estão dependurados da parede onde se expôem horários, preçários de fazer a barba e de cortar o cabelo, novidades úteis aos clientes.

Reconheço o barbeiro e o aprendiz. Envergam casacas alvíssimas, apropriadas à profissão. Muito me admira a pose do homem engravatado, o qual veste casaco preto e camisa branca. Tem boné de pala à militar. O desconhecido não é da minha alimbrança.
- Quem pode ter sido? - As mãos agarram em bilhetes de lotaria e maços de cautelas soltas. Os pés alinham-se com a câmara fotográfica. A bigodaça disfarça-se de meio sorriso, em perfil. Só por isso vale a pena arriscar, às apalpadelas, o nome do fulano. tenho a certeza. É a figura do cauteleiro daquela época: o senhor cabo Silva, vendedor da sorte grande. Conheço-o já velho, estropiado e a mancar no Largo de Nossa Senhora do Rosário. Ele tem a cabeça azoinada pelos desgostos conjugais. Lembro-me de o ouvir a falar muito alto e do rapazio o gozar de palanque repetindo a frase:
- É cabo e não manda nada! - É cabo e não manda nada!
- Quem cospe pró ar! Quem cospe pró ar! - Replica o cabo Silva a bater palmas e a dar estalos com os lábios. Renega o mando da tropa-fandanga. Faz-se moita. Assobia aos cães enrolados no baturel da Mar Cristina. Ele anda a dar facho atraído pela música de vanguarda. Alguém lhe diz que o espírito do jazz entra à solta pelo alumiar da porta da Barbearia Mimosa. O entusiasmo pela improvisação musical liberta-lhe tempo e prende-lhe ideias: a popularidade da Filarmónica Idanhense, a Glenn Miller AAF Orchestra do exército americano na Europa, a fauna ávida de surpresas à custa dos sons característicos de concertos de jazz.

Porto, 14 de Outubro de 2014
Fernando Morão
in o jornal "Raiano"

O Ponsul Jazz

Partilhado por João Carlos Silveira em 29 de maio de 2020
Deve ter sido bastante divertido assistir-se à génese do agrupamento Ponsul Jazz, ao estilo preferido da década dos anos 40. É boa! O grupo pinta a manta na Barbearia Mimosa, a qual se situa na loja da senhora Andreia. O cauteleiro toca barimbau só nos ensaios. Faz vibrar a lingueta de ferro, entalada entre os dentes, com o dedo indicador da mão direita. Com alguma surpresa, aquele lambão apregoa a receita:
- Compra a sorte, ò João António.

Pois bem, sorte é o ambiente sonoro oferecido pela Barbearia do senhor João António, que é folclorista (regente do rancho etnográfico) e acordeonista de gema. No plano instrumental, é autodidacta, mas é um virtuoso do acordeão. Dotado de raro talento para a música, mostra-se criativo tanto nos acordes, como na técnica de composição. Quando toca o Corridinho da Mar dos Santos, quer meças com a rainha (Eugénia Lima). Como dinamizador musical de coturno, mete-se em tudo. Ele é capaz de pôr a juventude em marcha quer nos arraiais e nos balhos, quer nas modas de roda e nos teatros populares. No acordeão, carrega emoções fortes da band-jazz, que parecem ouvir-se sempre pela primeira vez. O cabo silva encarrapitcha-se na cadeira da barbearia, quando entram, um a um, os músicos que completam o sexteto de jazz; à frente, o Zéi Ramos Constantino (o Caixa), que é multi-instrumentista e o melhor baterista idanhense, é uma máquina de fazer swing. O nosso cabo, que anda ranhido com alguns filarmónicos, fica embezerrado pela chegada do Manuel Vinagre (alfaiate e saxofonista) e do Tónho Requinta (sapateiro e clarinetista).

E quer saber: 
- Ei-lha lá. ò João António, quem são os do trombone? - Julgo que são o Jquim Vinagre e o Jquim Barroso. o grupo, que improvisa músicas cuja sensação de beleza salta aos olhos, prepara-se para sair bem na fotografia: veste-se ao jeito de músicos afro-americanos (calças pretas vincadas e blusas de chifom vermelho com golas altas).

Chega o momento histórico. O senhor retratista, consciente do acto de fotografar, ajeita as poses dos fotografados aos eu olhar. Evita estratagemas de repetição. Antecipa-se ao juízo da posteridade.

Eu nunca me canso de ouvir a música de jazz que há naquele retrato. 

Porto, 14 de Outubro de 2014
Fernando Morão
in o jornal "Raiano"

Estrelas cadentes

Partilhado por João Carlos Silveira em 29 de maio de 2020
História da Maria Rita Santos Nunes 

Juntar uma história

 
Enriqueça a sua história com fotos, músicas ou vídeos (opcional):