Eu tinha apenas 4 anos quando Marcio nasceu, mas lembro vagamente de estarmos todos na varanda da casa de nossa avó Ede, e alguém chegar com a alegre noticia que nasceu um menino! Quantas boas lembranças temos juntos em família, que ficarão nos nossos corações para sempre!
Carta para Cinho
Hoje faz 1 ano da maior perda da minha vida até aqui. Era de manhã quando Hudson me ligou para dar a notícia. Eu mal tinha saído da cama. Dali em diante, eu enfrentei os piores dias da minha vida. Foi um golpe duro, como você se foi cedo Cinho. E como eu percebi que você ocupa um lugar gigante e sagrado dentro de mim. A minha infância. Sim, esse foi o período que nós mais convivemos, já que ainda com 15 anos (eu com 13) você saiu de casa para estudar em Salvador. Quando você se foi, eu não parava de lembrar de você criança, sua imagem ainda menino não saía da minha cabeça. Hoje eu entendo porquê. Eu só quero que você saiba que eu te amo, eu amo o menino e o irmão que você foi, a infância e a vida que partilhamos. Tudo continua vivo dentro de mim, você vive em mim.
Com amor,
Thaís
Hoje faz 1 ano da maior perda da minha vida até aqui. Era de manhã quando Hudson me ligou para dar a notícia. Eu mal tinha saído da cama. Dali em diante, eu enfrentei os piores dias da minha vida. Foi um golpe duro, como você se foi cedo Cinho. E como eu percebi que você ocupa um lugar gigante e sagrado dentro de mim. A minha infância. Sim, esse foi o período que nós mais convivemos, já que ainda com 15 anos (eu com 13) você saiu de casa para estudar em Salvador. Quando você se foi, eu não parava de lembrar de você criança, sua imagem ainda menino não saía da minha cabeça. Hoje eu entendo porquê. Eu só quero que você saiba que eu te amo, eu amo o menino e o irmão que você foi, a infância e a vida que partilhamos. Tudo continua vivo dentro de mim, você vive em mim.
Com amor,
Thaís
Por Arnaldo Golino
Márcio, um Capricorniano como eu, vizinhos de dia que nascemos, ele dia 11 de janeiro e eu dia 13. Separados por anos de distância, mas amigos como dois adolescentes que gostam de um "causo", uma piada boa e de dar risadas gostosas.
Deixou uma profunda saudade neste que escreve, uma tristeza de ir a Vitória da Conquista e não vê-lo mais fisicamente. Mas sempre e em todos os momentos senti sua presença espiritual em saber que estará entre nós ouvindo, rindo...vai diminuindo um pouco a saudade.
Conheci Márcio há dez anos, mas é como tivéssemos brincado quando crianças e crescidos juntos. Guardo você, meu amigo, no coração e na memória. Um dia haveremos de nos encontrar na eternidade para continuarmos os nossos papos e piadas!
Márcio, um Capricorniano como eu, vizinhos de dia que nascemos, ele dia 11 de janeiro e eu dia 13. Separados por anos de distância, mas amigos como dois adolescentes que gostam de um "causo", uma piada boa e de dar risadas gostosas.
Deixou uma profunda saudade neste que escreve, uma tristeza de ir a Vitória da Conquista e não vê-lo mais fisicamente. Mas sempre e em todos os momentos senti sua presença espiritual em saber que estará entre nós ouvindo, rindo...vai diminuindo um pouco a saudade.
Conheci Márcio há dez anos, mas é como tivéssemos brincado quando crianças e crescidos juntos. Guardo você, meu amigo, no coração e na memória. Um dia haveremos de nos encontrar na eternidade para continuarmos os nossos papos e piadas!
Travessia.
Pensar na morte de um filho, irmão, cônjuge, sempre me deu frisson e logo o pensamento era afastado: “Meu Deus, não da nem pra pensar!” Confesso que até hoje tenho “pequenos choques” diários pela ausência de Márcio. E como poderia ser diferente? Márcio tinha uma vida com baixa exposição ao risco - não precisava pegar estrada para trabalhar, por exemplo. Sua vida era preenchida pela faculdade, os afazeres com a família, a casa. Sua rotina incluía acordar cedo (me dizia que às 4h da manhã) para estudar. O volume de compromissos se espremia no dia. Quando precisava falar com ele, ali pelas 9h da noite, já sabia que teria de deixar para o dia seguinte. Também desconhecíamos qualquer problema grave de saúde.
Na manhã do dia 08 de dezembro de 2024, Márcio faleceu. Consta no seu atestado de óbito, que por parada cardíaca. O fato é que ele estava internado na UTI há uma semana, vítima de uma síndrome hepato-renal aguda. Cerca de 20 dias antes, teria vindo o diagnóstico da doença hepática. “Tudo reversível, mas vai levar tempo e tratamento”, ouvimos. Desconhecíamos a condição prévia dos rins. Três meses antes, nos relatou uma crise forte de ansiedade e depressão.
Faltava um semestre para concluir o curso de medicina. Márcio sonhava em fazer residência em cirurgia. Logo constatou que não daria para conciliar a residência de 60 horas semanais com os plantões que precisaria fazer para complementar a renda. Mudou de ideia e passou a cogitar a psiquiatria, eram 40 horas semanais. Nos últimos tempos, parou de comentar sobre os planos da residência. No dia da sua partida, faltavam também poucos dias para Jorginho completar 8 anos, e para que todos estivéssemos reunidos para o Natal. Faltava, também, um mês para seu aniversario de 42 anos.
No quarto em que Márcio estudava, encontrei uns escritos feitos por ele, escondidos entre tantas notas de estudo, esquemas de bioquímica, outros tantos de processos diagnósticos, desenhos dos filhos colados na parede. E lá, no meio disso tudo, estavam páginas e mais páginas escritas por ele. Pareciam comandos de meditação – creio que nunca saberemos o que eram de fato. Sete páginas no total. Um trecho dizia “Agora, há somente uma grande paz, alegria, luz, amor, sabedoria, realização plena, equilíbrio físico, mental, emocional e espiritual.” Era o que ele clamava naqueles dias de aflição e escuridão. A morte, embora indesejada, deu fim também a essa aflição.
A vida encerrou para ele. E para nós, a vida continua. Mas não sem ele. Ele permanece, amplo, dentro e ao redor de nós. Não somos mais aqueles de um ano atrás. Esse “nós” inclui o núcleo da família - esposa, filhos, pais, irmãos - e se estende a primos, tios, amigos, professores, colegas de profissão. A todos aqueles a quem sua partida deixou uma marca, e que seguem carregando a dor da ausência e o estupor do final.
A vida de muitos foi chacoalhada. O futuro cheio de promessas se desfez, a rotina dolorosa sem Márcio se impôs. É como um vale florido sendo arrasado por uma tempestade que não poupa nada. Olhamos ao redor e vemos os rastros da tempestade: alagamentos, destruição, desolação. Mas também, vida. Como depois de qualquer tempestade, o sol volta a nascer, o céu se refaz em azul, algumas poucas árvores permanecem de pé, e de algumas casas ainda firmes saem pessoas. Muitos de nós fomos essas pessoas: abalados por um acontecimento descomunal e devastador, mas firmes na decisão de seguir em frente. Outras pessoas saíram das casas e vieram em socorro. Não há como mensurar o valor daqueles que viajaram apenas para estar conosco nos dias mais difíceis, que se fizeram presentes de tantas maneiras – no abraço silencioso ao sair do hospital, no auxílio com a burocracia que o momento exigia e não conseguíamos resolver, na sopa que nos aguardava em casa no dia do enterro, nas flores, na presença física e empática de tantos que reconheciam e acolhiam a nossa dor.
“Não se supera a morte de um filho”, ouvi de algumas pessoas se referindo a uma entrevista de Cissa Guimaraes sobre a morte do filho. Eu não perdi um filho, mas acompanho de perto a dor de perder um. Concordo com essa frase, dependendo do que se entenda por superar. Não se supera no sentido de solucionar ou resolver. A morte é um fato consumado, irreversível. Não é uma doença da qual se sara, uma crise financeira, um casamento que se desfaz - e se for essa a solução, portanto não é mais um problema.
A morte de um filho, um esposo, um pai, um irmão... é uma situação permanente, uma condição que se instala, que passa a ser parte de quem somos. A pessoa (e sua morte) continua a estar presente, acompanha para sempre a vida de quem fica. Nesse sentido, não se supera.
Mas o verbo superar também pode ter outros sentidos: pode significar deixar para trás, seguir adiante. Nesse caso, superar é Travessia. Significa atravessar a fase mais dura do luto. Não se prender a ela, nem permitir que ocupe para sempre o centro da nossa vida. Supera-se o abalo. Supera-se o desespero, o medo do futuro, a angústia. Supera-se essa raiva que busca destinatário. E a raiva sempre encontra seu destinatário, seja na assistência médica que não veio antes, nas pessoas que se fizeram ausentes ou insensíveis, naquela pessoa que faz um comentário torpe, na vida que o levou tão cedo, em nós mesmos. Isso também fica para trás. Neste sentido, superar é permitir que a ausência exista sem que ela nos defina; é quando ela deixa de ser o núcleo do que somos e passa a ser apenas uma parte (permanente, mas não dominante), da nossa presença no mundo.
Superar também é elevar-se, tornar-se maior, alcançar novas alturas dentro de si. A morte de quem amamos nos convida a essa superação interior: à capacidade de aceitar o inaceitável, de compreender o incompreensível, de continuar vivendo mesmo diante da perda. O que antes bastava já não serve: é preciso ir além, se quisermos continuar não apenas existindo, mas vivendo plenamente com alegrias e dores. Essa é a superação mais profunda e a que mais nos exige. Mas, quando alcançada, transforma. Talvez por isso dizem que “o que não nos mata nos fortalece”: porque, ao percebermos que podemos, ganhamos uma nova força, e essa força gera outra, num ciclo contínuo.
Superar não significa apagar, eliminar ou fingir que nada aconteceu. O que foi vivido (e sofrido) permanece, e é justamente essa permanência que leva a superação. Esquecer não é superar. Não há pílula que nos devolva a inocência anterior ao acontecimento. A verdadeira superação consiste em reconhecer o que restou e usar isso como base para reconstruir. E reconstruir exige coragem: é preciso olhar a devastação de frente, mergulhar na dor sem recuar.
Como depois de toda tempestade, um dia as águas baixam. E o que parecia impossível acontece: o retorno. Não da antiga, mas de uma nova normalidade. Um dia, sem perceber, notamos que não choramos. Que o primeiro pensamento do dia (o segundo, talvez, e isso já é muito), não foi a ausência de Márcio, mas outro qualquer. As lembranças sombrias, as imagens que dilaceram, as fraquezas que nos esvaziam, as ansiedades que anunciam o choro, um sonho que nos faz acordar chorando. Tudo começa a perder força. Vai se tornando menos frequente, mais leve. Voltamos a estar entre pessoas, a rir sem culpa, a retomar a vida. Pouco a pouco, voltamos a ter empatia pelo sofrimento dos outros e a enxergar que os problemas que antes nos pareciam pequenos demais são grandes para quem os vive. Então, saímos do nosso próprio centro e voltamos ao mundo. E nele descobrimos que, sim, a vida continua.
Nada é igual, mas nem tudo é pior. Tudo mudou, e nós também. Talvez hoje sejamos mais sábios, mais calmos, mais ponderados. Sei mais sobre minha própria resiliência e sobre a capacidade de lidar com a adversidade. Tenho aprendido a valorizar o que possuo, mais do que o que perdi ou ainda busco. Compreendo melhor o que quero e no que acredito. Dou valor maior ao afeto de algumas pessoas. Tenho mais sede de viver experiências, de aprender novas coisas, tenho novas dúvidas. Guardei muito do que era e abandonei tantas outras. Trocaria isso tudo por ter de volta o meu irmão? Certamente que sim, mas não tenho a ilusão de que isso seja possível.
Entre os aprendizados, talvez o mais duro seja este: há perdas na vida, e as perdas verdadeiras não têm volta. Perdemos não somente as risadas de Márcio, sua companhia, os momentos de “resenhas”. Falando por mim, eu perdi a ilusão de que a morte não nos atinge, aquele estado de inocência tão bem descrito há mais de 2000 anos por Sócrates em sua carta de consolação a Marcia: “Achamos que o mal só acontece com os outros.”; “Você recebeu o que é comum a todos: por que se comportar como se fosse um castigo especial?”. Sêneca fala da ilusão que temos de que estamos imunes, que nossos filhos viverão para sempre, que o sofrimento dos outros não nos alcançará. E quando a vida nos desmente, o choque é maior. Passei a encarar a impermanência da vida e daqueles que amamos com mais naturalidade, incluindo minhas filhas. Coisas ruins podem nos acontecer a qualquer momento, mesmo aquelas tão distantes que fogem do campo do imaginável. Especialmente quando adultos, nossos filhos serão pessoas com poder de decisão independente de mim. Passaremos a conhecer apena uma parte deles, muitas vezes uma parte bem pequena, aquela que eles querem e podem compartilhar conosco. Nós, pais, não somos onipotentes: há forças que nos ultrapassam e que podem ferir ou levar nossos filhos.
Aprendi também que existe um ponto em que a dor é absoluta. Não vivi a perda de um filho diretamente, mas a presenciei de perto. E percebi que não cabe comparação entre sofrimentos: não há comparação possível entre o pai que perde um bebê ainda novinho e a mãe que perde seu filho adulto. Cada perda ocupa por completo o universo de quem sofre. A dor é inteira. Não existe mais ou menos quando o que se perde é irrecuperável.
Márcio foi uma alma gentil e sensível, uma presença serena. Nosso amado Márcio era aquele companheiro de conversa e risadas que cativava a todos e deixava sempre um gostinho de "quero mais" da sua presença quando se recolhia em seu silêncio. Foi um ouvinte afetuoso e paciente. Quando compartilhávamos com ele os nossos momentos difíceis, era sempre com uma palavra de otimismo e esperança que nos acolhia: "Relaxe...tudo vai dar certo, tudo vai se resolver". Sua força e determinação para enfrentar a vida e seus obstáculos nos serve de inspiração. Abraçou com coragem os desafios que a vida lhe impôs. Sua partida será sempre sentida como precoce por nós que o amamos, mas nos confortamos em constatar que teve uma vida de realizações em tantos âmbitos. Foi o "Baba" de Jorge e Mathias, a "Vida" de Juliana, o "Mega" dos amigos, o "Cinho" da família, o nosso "Migo". Mais recentemente, perseguia o sonho de ser médico. E mesmo faltando tão pouco para se concretizar, agradecemos a oportunidade que ele teve de se dedicar a este projeto por quase seis anos com tanto sacrifício e empenho. Foi reconhecido por colegas e professores por sua competência e conhecimento. Sua luz iluminou a vida de muitos que fizeram parte da sua trajetória. A sua partida foi uma explosão de luz final que iluminou e queimou os que estavam ao seu redor. Cabe a nós guardar a luz e curar o resto.
Mariana Teles (Dez 25)
Pensar na morte de um filho, irmão, cônjuge, sempre me deu frisson e logo o pensamento era afastado: “Meu Deus, não da nem pra pensar!” Confesso que até hoje tenho “pequenos choques” diários pela ausência de Márcio. E como poderia ser diferente? Márcio tinha uma vida com baixa exposição ao risco - não precisava pegar estrada para trabalhar, por exemplo. Sua vida era preenchida pela faculdade, os afazeres com a família, a casa. Sua rotina incluía acordar cedo (me dizia que às 4h da manhã) para estudar. O volume de compromissos se espremia no dia. Quando precisava falar com ele, ali pelas 9h da noite, já sabia que teria de deixar para o dia seguinte. Também desconhecíamos qualquer problema grave de saúde.
Na manhã do dia 08 de dezembro de 2024, Márcio faleceu. Consta no seu atestado de óbito, que por parada cardíaca. O fato é que ele estava internado na UTI há uma semana, vítima de uma síndrome hepato-renal aguda. Cerca de 20 dias antes, teria vindo o diagnóstico da doença hepática. “Tudo reversível, mas vai levar tempo e tratamento”, ouvimos. Desconhecíamos a condição prévia dos rins. Três meses antes, nos relatou uma crise forte de ansiedade e depressão.
Faltava um semestre para concluir o curso de medicina. Márcio sonhava em fazer residência em cirurgia. Logo constatou que não daria para conciliar a residência de 60 horas semanais com os plantões que precisaria fazer para complementar a renda. Mudou de ideia e passou a cogitar a psiquiatria, eram 40 horas semanais. Nos últimos tempos, parou de comentar sobre os planos da residência. No dia da sua partida, faltavam também poucos dias para Jorginho completar 8 anos, e para que todos estivéssemos reunidos para o Natal. Faltava, também, um mês para seu aniversario de 42 anos.
No quarto em que Márcio estudava, encontrei uns escritos feitos por ele, escondidos entre tantas notas de estudo, esquemas de bioquímica, outros tantos de processos diagnósticos, desenhos dos filhos colados na parede. E lá, no meio disso tudo, estavam páginas e mais páginas escritas por ele. Pareciam comandos de meditação – creio que nunca saberemos o que eram de fato. Sete páginas no total. Um trecho dizia “Agora, há somente uma grande paz, alegria, luz, amor, sabedoria, realização plena, equilíbrio físico, mental, emocional e espiritual.” Era o que ele clamava naqueles dias de aflição e escuridão. A morte, embora indesejada, deu fim também a essa aflição.
A vida encerrou para ele. E para nós, a vida continua. Mas não sem ele. Ele permanece, amplo, dentro e ao redor de nós. Não somos mais aqueles de um ano atrás. Esse “nós” inclui o núcleo da família - esposa, filhos, pais, irmãos - e se estende a primos, tios, amigos, professores, colegas de profissão. A todos aqueles a quem sua partida deixou uma marca, e que seguem carregando a dor da ausência e o estupor do final.
A vida de muitos foi chacoalhada. O futuro cheio de promessas se desfez, a rotina dolorosa sem Márcio se impôs. É como um vale florido sendo arrasado por uma tempestade que não poupa nada. Olhamos ao redor e vemos os rastros da tempestade: alagamentos, destruição, desolação. Mas também, vida. Como depois de qualquer tempestade, o sol volta a nascer, o céu se refaz em azul, algumas poucas árvores permanecem de pé, e de algumas casas ainda firmes saem pessoas. Muitos de nós fomos essas pessoas: abalados por um acontecimento descomunal e devastador, mas firmes na decisão de seguir em frente. Outras pessoas saíram das casas e vieram em socorro. Não há como mensurar o valor daqueles que viajaram apenas para estar conosco nos dias mais difíceis, que se fizeram presentes de tantas maneiras – no abraço silencioso ao sair do hospital, no auxílio com a burocracia que o momento exigia e não conseguíamos resolver, na sopa que nos aguardava em casa no dia do enterro, nas flores, na presença física e empática de tantos que reconheciam e acolhiam a nossa dor.
“Não se supera a morte de um filho”, ouvi de algumas pessoas se referindo a uma entrevista de Cissa Guimaraes sobre a morte do filho. Eu não perdi um filho, mas acompanho de perto a dor de perder um. Concordo com essa frase, dependendo do que se entenda por superar. Não se supera no sentido de solucionar ou resolver. A morte é um fato consumado, irreversível. Não é uma doença da qual se sara, uma crise financeira, um casamento que se desfaz - e se for essa a solução, portanto não é mais um problema.
A morte de um filho, um esposo, um pai, um irmão... é uma situação permanente, uma condição que se instala, que passa a ser parte de quem somos. A pessoa (e sua morte) continua a estar presente, acompanha para sempre a vida de quem fica. Nesse sentido, não se supera.
Mas o verbo superar também pode ter outros sentidos: pode significar deixar para trás, seguir adiante. Nesse caso, superar é Travessia. Significa atravessar a fase mais dura do luto. Não se prender a ela, nem permitir que ocupe para sempre o centro da nossa vida. Supera-se o abalo. Supera-se o desespero, o medo do futuro, a angústia. Supera-se essa raiva que busca destinatário. E a raiva sempre encontra seu destinatário, seja na assistência médica que não veio antes, nas pessoas que se fizeram ausentes ou insensíveis, naquela pessoa que faz um comentário torpe, na vida que o levou tão cedo, em nós mesmos. Isso também fica para trás. Neste sentido, superar é permitir que a ausência exista sem que ela nos defina; é quando ela deixa de ser o núcleo do que somos e passa a ser apenas uma parte (permanente, mas não dominante), da nossa presença no mundo.
Superar também é elevar-se, tornar-se maior, alcançar novas alturas dentro de si. A morte de quem amamos nos convida a essa superação interior: à capacidade de aceitar o inaceitável, de compreender o incompreensível, de continuar vivendo mesmo diante da perda. O que antes bastava já não serve: é preciso ir além, se quisermos continuar não apenas existindo, mas vivendo plenamente com alegrias e dores. Essa é a superação mais profunda e a que mais nos exige. Mas, quando alcançada, transforma. Talvez por isso dizem que “o que não nos mata nos fortalece”: porque, ao percebermos que podemos, ganhamos uma nova força, e essa força gera outra, num ciclo contínuo.
Superar não significa apagar, eliminar ou fingir que nada aconteceu. O que foi vivido (e sofrido) permanece, e é justamente essa permanência que leva a superação. Esquecer não é superar. Não há pílula que nos devolva a inocência anterior ao acontecimento. A verdadeira superação consiste em reconhecer o que restou e usar isso como base para reconstruir. E reconstruir exige coragem: é preciso olhar a devastação de frente, mergulhar na dor sem recuar.
Como depois de toda tempestade, um dia as águas baixam. E o que parecia impossível acontece: o retorno. Não da antiga, mas de uma nova normalidade. Um dia, sem perceber, notamos que não choramos. Que o primeiro pensamento do dia (o segundo, talvez, e isso já é muito), não foi a ausência de Márcio, mas outro qualquer. As lembranças sombrias, as imagens que dilaceram, as fraquezas que nos esvaziam, as ansiedades que anunciam o choro, um sonho que nos faz acordar chorando. Tudo começa a perder força. Vai se tornando menos frequente, mais leve. Voltamos a estar entre pessoas, a rir sem culpa, a retomar a vida. Pouco a pouco, voltamos a ter empatia pelo sofrimento dos outros e a enxergar que os problemas que antes nos pareciam pequenos demais são grandes para quem os vive. Então, saímos do nosso próprio centro e voltamos ao mundo. E nele descobrimos que, sim, a vida continua.
Nada é igual, mas nem tudo é pior. Tudo mudou, e nós também. Talvez hoje sejamos mais sábios, mais calmos, mais ponderados. Sei mais sobre minha própria resiliência e sobre a capacidade de lidar com a adversidade. Tenho aprendido a valorizar o que possuo, mais do que o que perdi ou ainda busco. Compreendo melhor o que quero e no que acredito. Dou valor maior ao afeto de algumas pessoas. Tenho mais sede de viver experiências, de aprender novas coisas, tenho novas dúvidas. Guardei muito do que era e abandonei tantas outras. Trocaria isso tudo por ter de volta o meu irmão? Certamente que sim, mas não tenho a ilusão de que isso seja possível.
Entre os aprendizados, talvez o mais duro seja este: há perdas na vida, e as perdas verdadeiras não têm volta. Perdemos não somente as risadas de Márcio, sua companhia, os momentos de “resenhas”. Falando por mim, eu perdi a ilusão de que a morte não nos atinge, aquele estado de inocência tão bem descrito há mais de 2000 anos por Sócrates em sua carta de consolação a Marcia: “Achamos que o mal só acontece com os outros.”; “Você recebeu o que é comum a todos: por que se comportar como se fosse um castigo especial?”. Sêneca fala da ilusão que temos de que estamos imunes, que nossos filhos viverão para sempre, que o sofrimento dos outros não nos alcançará. E quando a vida nos desmente, o choque é maior. Passei a encarar a impermanência da vida e daqueles que amamos com mais naturalidade, incluindo minhas filhas. Coisas ruins podem nos acontecer a qualquer momento, mesmo aquelas tão distantes que fogem do campo do imaginável. Especialmente quando adultos, nossos filhos serão pessoas com poder de decisão independente de mim. Passaremos a conhecer apena uma parte deles, muitas vezes uma parte bem pequena, aquela que eles querem e podem compartilhar conosco. Nós, pais, não somos onipotentes: há forças que nos ultrapassam e que podem ferir ou levar nossos filhos.
Aprendi também que existe um ponto em que a dor é absoluta. Não vivi a perda de um filho diretamente, mas a presenciei de perto. E percebi que não cabe comparação entre sofrimentos: não há comparação possível entre o pai que perde um bebê ainda novinho e a mãe que perde seu filho adulto. Cada perda ocupa por completo o universo de quem sofre. A dor é inteira. Não existe mais ou menos quando o que se perde é irrecuperável.
Márcio foi uma alma gentil e sensível, uma presença serena. Nosso amado Márcio era aquele companheiro de conversa e risadas que cativava a todos e deixava sempre um gostinho de "quero mais" da sua presença quando se recolhia em seu silêncio. Foi um ouvinte afetuoso e paciente. Quando compartilhávamos com ele os nossos momentos difíceis, era sempre com uma palavra de otimismo e esperança que nos acolhia: "Relaxe...tudo vai dar certo, tudo vai se resolver". Sua força e determinação para enfrentar a vida e seus obstáculos nos serve de inspiração. Abraçou com coragem os desafios que a vida lhe impôs. Sua partida será sempre sentida como precoce por nós que o amamos, mas nos confortamos em constatar que teve uma vida de realizações em tantos âmbitos. Foi o "Baba" de Jorge e Mathias, a "Vida" de Juliana, o "Mega" dos amigos, o "Cinho" da família, o nosso "Migo". Mais recentemente, perseguia o sonho de ser médico. E mesmo faltando tão pouco para se concretizar, agradecemos a oportunidade que ele teve de se dedicar a este projeto por quase seis anos com tanto sacrifício e empenho. Foi reconhecido por colegas e professores por sua competência e conhecimento. Sua luz iluminou a vida de muitos que fizeram parte da sua trajetória. A sua partida foi uma explosão de luz final que iluminou e queimou os que estavam ao seu redor. Cabe a nós guardar a luz e curar o resto.
Mariana Teles (Dez 25)
Sobre Palcos e Flores.
A vida, de certa forma, nos apresenta vários momentos de perda. Algumas perdas são fáceis de lidar. Outras, são muito, muito difíceis. Umas são pessoais, atuando como principais atores e diretores. Já em outras, estamos na plateia, bastidores, ou atuando como atores coadjuvantes.
Tenho a sensação que essas últimas são de uma dimensão diferente. Quando a perda acontece no palco principal das nossas vidas, onde somos os principais atores e diretores, o processo e o resultado são claramente nossos. Um passo em falso, e tudo pode piorar. Decisões acertadas, e as coisas caminham numa direção menos dolorida.
Mas quando estamos nos bastidores ou atuamos como coadjuvantes, nossa capacidade de impactar o outro diminui drasticamente.
A dor é instransferível. O sofrimento é único.
Ter de lidar com a dor e sofrimento de quem mais amamos na vida é, também, dolorido. Nos bastidores do teatro da vida, podemos dar suporte e oferecer o que esteja ao nosso alcance. Mas não podemos simplesmente pegar a dor e o sofrimento, dividir em fatias, e distribuir.
Não podemos entrar no coração de quem amamos e roubar nem a dor, nem o sofrimento, nem pegar para nós o abismo que se abre abaixo dos seus pés para cair no seu lugar.
A dor é única. O sofrimento é intransferível. E o abismo da perda não pode ser dividido.
Mas podem ser compartilhados.
Nos bastidores ou como coadjuvantes, talvez a única ferramenta ao nosso dispor é escutar. Ouvir. Estar presente.
Nos últimos meses, por incontáveis vezes me peguei com um impulso de tentar roubar pra mim a dor, o desolamento, o sofrimento, a angústia estampada nos olhos, no semblante, nas expressões do rosto de uma das pessoas mais alegres que eu já conheci: Mariana. O meu amor, a minha namorada, esposa, colega de trabalho, parceira de aventuras e de viagens. Mas não há como roubar, pegar, dividir, ou estancar a dor, o sofrimento, o abismo.
A dor não pode ser dividida. O sofrimento é único. O abismo é intransferível. A angústia é individual.
Como atores assistentes desse palco, também sofremos, e muito. Mas é uma dor que tem que ser vivida contida, calada. O sofrimento e a dor dos outros vêm em primeiro lugar. E já basta o que têm que enfrentar…
O que está ao meu alcance, além da presença e da escuta, é a memória e as lembranças.
É ai que entram as flores.
Um dia precisei ir para Conquista meio que de última hora. Não era necessariamente uma surpresa, mas era uma viagem não planejada. Precisava chegar na rodoviária (a situação financeira naquela época nem era ruim, porque para ser ruim ia precisar melhorar um bocado) e ir direto para uma floricultura para comprar um arranjo de flores bem bonito para dar de presente pra Mari. Tinha que ser um bem bonito e bem grande (quanto maior o buquê, maior a cagada de quem entrega, como já dizia a sabedoria popular mineira).
Como eu não conhecia a cidade direito, pedi ajuda ao mago dos bastidores, Márcio. A tarefa foi prontamente aceita em parte, desconfio eu, pela curiosidade de saber o que havia acontecido para merecer um arranjo de flores e uma visita não agendada, mas isso já é especulação minha.
O que sei ao certo é que fomos para uma floricultura local curiosa. A variedade de flores não era tão grande quanto eu esperava. Os arranjos não eram bem como eu estava imaginando. E o clima não era aquele clima agradável de floricultura decorativa.
Perguntei se não havia um arranjo de rosas vermelhas, rosas, e brancas para dar de presente. A vendedora me olhou de uma forma típica: não devia estar compreendendo o meu sotaque, pensei.
Repeti a pergunta, tentando falar o mais claramente possível, devagar, sem recursos linguísticos mineiros algum. Ela me olhou estranho novamente e me perguntou: “não é uma escolha muito diferente não?”.
Como pode arranjo de rosas ser uma escolha diferente? Será que no planalto bahiano as pessoas optavam por outro tipo de flores para as pessoas que amavam?
Devolvi o olhar estranho.
Ganhei outro mais curioso ainda.
E aí compreendi o mistério: Marcio tinha me levado para uma floricultura de velório.
Genial.
Não sei se foi de propósito ou se foi a primeira que lhe passou pela memória.
Mas era uma floricultura especializada em outro tipo de situação, e a minha não passava perto de um velório…
Essa é uma história que eu gosto sempre de contar.
E tem me ajudado a lembrar do Marcio de uma forma que me traga alegria, ofuscando a dor.
A dor é instransferível. O sofrimento é único. A presença e a escuta ajudam.
A memória de boas histórias podem servir para dar uma leveza momentânea.
Os palcos da vida nem sempre nos faz rir. Muitas vezes nos testam ao limite.
Que as flores nos ajudem.
A vida, de certa forma, nos apresenta vários momentos de perda. Algumas perdas são fáceis de lidar. Outras, são muito, muito difíceis. Umas são pessoais, atuando como principais atores e diretores. Já em outras, estamos na plateia, bastidores, ou atuando como atores coadjuvantes.
Tenho a sensação que essas últimas são de uma dimensão diferente. Quando a perda acontece no palco principal das nossas vidas, onde somos os principais atores e diretores, o processo e o resultado são claramente nossos. Um passo em falso, e tudo pode piorar. Decisões acertadas, e as coisas caminham numa direção menos dolorida.
Mas quando estamos nos bastidores ou atuamos como coadjuvantes, nossa capacidade de impactar o outro diminui drasticamente.
A dor é instransferível. O sofrimento é único.
Ter de lidar com a dor e sofrimento de quem mais amamos na vida é, também, dolorido. Nos bastidores do teatro da vida, podemos dar suporte e oferecer o que esteja ao nosso alcance. Mas não podemos simplesmente pegar a dor e o sofrimento, dividir em fatias, e distribuir.
Não podemos entrar no coração de quem amamos e roubar nem a dor, nem o sofrimento, nem pegar para nós o abismo que se abre abaixo dos seus pés para cair no seu lugar.
A dor é única. O sofrimento é intransferível. E o abismo da perda não pode ser dividido.
Mas podem ser compartilhados.
Nos bastidores ou como coadjuvantes, talvez a única ferramenta ao nosso dispor é escutar. Ouvir. Estar presente.
Nos últimos meses, por incontáveis vezes me peguei com um impulso de tentar roubar pra mim a dor, o desolamento, o sofrimento, a angústia estampada nos olhos, no semblante, nas expressões do rosto de uma das pessoas mais alegres que eu já conheci: Mariana. O meu amor, a minha namorada, esposa, colega de trabalho, parceira de aventuras e de viagens. Mas não há como roubar, pegar, dividir, ou estancar a dor, o sofrimento, o abismo.
A dor não pode ser dividida. O sofrimento é único. O abismo é intransferível. A angústia é individual.
Como atores assistentes desse palco, também sofremos, e muito. Mas é uma dor que tem que ser vivida contida, calada. O sofrimento e a dor dos outros vêm em primeiro lugar. E já basta o que têm que enfrentar…
O que está ao meu alcance, além da presença e da escuta, é a memória e as lembranças.
É ai que entram as flores.
Um dia precisei ir para Conquista meio que de última hora. Não era necessariamente uma surpresa, mas era uma viagem não planejada. Precisava chegar na rodoviária (a situação financeira naquela época nem era ruim, porque para ser ruim ia precisar melhorar um bocado) e ir direto para uma floricultura para comprar um arranjo de flores bem bonito para dar de presente pra Mari. Tinha que ser um bem bonito e bem grande (quanto maior o buquê, maior a cagada de quem entrega, como já dizia a sabedoria popular mineira).
Como eu não conhecia a cidade direito, pedi ajuda ao mago dos bastidores, Márcio. A tarefa foi prontamente aceita em parte, desconfio eu, pela curiosidade de saber o que havia acontecido para merecer um arranjo de flores e uma visita não agendada, mas isso já é especulação minha.
O que sei ao certo é que fomos para uma floricultura local curiosa. A variedade de flores não era tão grande quanto eu esperava. Os arranjos não eram bem como eu estava imaginando. E o clima não era aquele clima agradável de floricultura decorativa.
Perguntei se não havia um arranjo de rosas vermelhas, rosas, e brancas para dar de presente. A vendedora me olhou de uma forma típica: não devia estar compreendendo o meu sotaque, pensei.
Repeti a pergunta, tentando falar o mais claramente possível, devagar, sem recursos linguísticos mineiros algum. Ela me olhou estranho novamente e me perguntou: “não é uma escolha muito diferente não?”.
Como pode arranjo de rosas ser uma escolha diferente? Será que no planalto bahiano as pessoas optavam por outro tipo de flores para as pessoas que amavam?
Devolvi o olhar estranho.
Ganhei outro mais curioso ainda.
E aí compreendi o mistério: Marcio tinha me levado para uma floricultura de velório.
Genial.
Não sei se foi de propósito ou se foi a primeira que lhe passou pela memória.
Mas era uma floricultura especializada em outro tipo de situação, e a minha não passava perto de um velório…
Essa é uma história que eu gosto sempre de contar.
E tem me ajudado a lembrar do Marcio de uma forma que me traga alegria, ofuscando a dor.
A dor é instransferível. O sofrimento é único. A presença e a escuta ajudam.
A memória de boas histórias podem servir para dar uma leveza momentânea.
Os palcos da vida nem sempre nos faz rir. Muitas vezes nos testam ao limite.
Que as flores nos ajudem.